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O Rei de Todos os Monstros…

Cena do ultimo filme de Godzilla em 2004

Um maremoto destrói uma boa parte do litoral do Japão, ondas gigantes, tremores de terra, prédios desabam… Segue-se o perigo de contaminação radioativa, rastros, pegadas gigantescas. Terror. Faz uma semana que o terremoto seguido de tsunami arrasou a parte norte do Japão e danificou uma usina nuclear. Tragédia das mais comentadas, ilustradas por videos e imagens de todas as formas. Gerando comoção internacional.

Mesmo admitindo que nada pode diminuir o peso da tragédia, esse tipo de destruição em massa já está entronizada na cultura popular japonesa, seja pelos constantes terremotos, seja pelo histórico das duas bombas atômicas, sendo o único país a ter sido atacado com tal arma.

A Grande Onda de Kanagawa, xilogravura de 1830 que "pode" representar um Tsunami

Talvez seja exagero dizer, mas essa catástrofe podia se encaixar na sinopse de qualquer filme de Godzilla. E não foi só eu que vi isso.

Godzilla é um monstro criado pela radiação e, despertado num terremoto, já destruiu o Japão em 28 filmes desde 1954. Sua saga deu início ao sub-gênero de filmes japoneses conhecidos como kaiju, literalmente filmes de monstro. Se você era fã de Jaspion e Changeman quando criança pois saiba que eles são descendentes diretos do estilo de produção de Godzilla.

Godzilla destruindo prédios no original de 1954

O nome original em japonês era Gojira, mas foi americanizado quando lançado nos EUA e incluído o subtítulo King of the Monsters. Para lançar o filme no mercado americano ele foi re-editado com cenas adicionais de um repórter que vai cobrir o incidente no Japão (afinal o público estadunidense da época não se interessaria em ver um filme que não tivesse nenhum rosto ocidental no pôster). Se você via Power Rangers vai entender bem como é.

O filme foi um grande sucesso. Se tornou um ícone nipônico. A figura de Godzilla, em todo o mundo, é sempre associada ao Japão. Talvez até pela sua estética completamente diferente dos filmes de monstros ocidentais.

A concepção do monstro se tornou sua principal característica. Ao invés de usar a trabalhosa técnica do stop motion, o técnico de efeitos-especiais Eijy Tsuburaya usou um dublê dentro de uma fantasia de látex num cenário em miniatura da cidade. A cabeça é animada por manipuladores através cabos e baterias, e o dublê vê o mundo por buraquinhos no pescoço da fantasia. É a técnica chamada suitmation, a mesma dos personagens da Família Dinossauro e até da Priscila da Tv Colosso.

Dublê de Godzilla

Dublê de Godzilla

Se as crianças dos anos 80/90 não ligavam para os toscos efeitos e sim nas histórias dos seriados japoneses da tv, que dirá o público dos anos 50/60, até então acostumados com os monstros de brinquedo de Harryhausen. Aliás, segundo o produtor Tomoyuki Tanaka, a inspiração para criarem Godzilla veio do filme de Harryhausen The Beast from 20,000 Fathons, e também do incidente com o navio pesqueiro japonês Daigo Fukuryū Maru que fora contaminado por radiação durante os testes americanos da Bomba H nas Ilhas Bikini, mesmo estando fora da área de segurança indicada, em mais uma tragédia nuclear afetando japoneses.

Com o sucesso vem a massificação, as inacabáveis seqüencias, o licenciamento de brinquedos e até desenho animado feita pela Hanna-Barbera (tirando todos os traços japoneses). Enfrentou King Kong e outros monstros. Teve até o Babyzilla. E em 1998 teve a versão totalmente americana (acho até que demorou), essa sem estilo, um monstro de CGI plastificado e descaracterizado (mais parecido com os Tiranossauros de Spielberg em Jurassic Park). Um fracasso em todos os sentidos.

Godzilla americano de 1998, superprodução estraga prazeres

O filme original tem uma outra característica (talvez a melhor de todas) que é a fantástica música tema, composta por Akira Ifukube. Essa música recentemente foi usada no filme Tokyo!, uma homenagem de diretores franceses a capital japonesa. O rugido do monstro também foi criado por Ifukube tocando um contrabaixo com uma borracha.

A popularidade dos filmes atualmente não é mais a mesma, mas o personagem permanece. Muita gente já fez a piadinha de como Tóquio pode ser destruída tantas vezes e reconstruída até o próximo filme, quando então vem abaixo de novo. Talvez isso seja um reflexo de tantas destruições já passadas, terremotos, guerras, desastres naturais, não-naturais e sobrenaturais.

Os traumas históricos são exorcizados, retrabalhados, se tornando matéria prima para a cultura de um povo.

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