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Três anos depois…

Policiais com o material apreendido na noite de 3/05/2007

O que você estava fazendo na madrugada de 3 de maio de 2007? Nessa noite vários sites já davam notícia de mandados de prisão emitidos. Enquanto os policiais federais batiam nas portas suspeitas em Florianópolis e Porto Alegre, a notícia pipocava em vários sites a nível local e nacional. Toda uma investigação de nove meses ficava finalmente visível ao público. Naquela noite o juiz federal Zenildo Bodnar assinou os pedidos de prisão preventiva com o argumento que provas podiam estar sendo destruídas. Assim, não havia mais como segurar a notícia, pessoas conhecidas e importantes estavam sendo presas em suas mansões.

Nessa ultima semana que passou (a notícia é de 11/11) o mesmo juiz Bodnar entrou com um pedido de indenização por danos morais, por supostamente ter sido difamado. Segundo argumenta, na época ações do próprio ministério público foram feitas contra ele onde se “questionavam, com informações falsas e sem provas, decisões judiciais devidamente fundamentadas”. O estado poderá ser condenado a pagar até R$ 500 mil porque o juiz teria perdido uma importante indicação a promoção e teria lhe causado “estresse agudo e ansiedade prolongada, com uso de medicamentos”. E também estaria sofrendo de bruxismo (!), ou seja, literalmente choro e ranger de dentes.

Juiz Federal Zenildo Bodnar, que assinou os pedidos de prisão preventiva

Mais de três anos se passaram, nenhum dos 54 indiciados está preso. Aliás, boa parte das penas seria de três anos, quer dizer, já estão prescrevendo, se é que não prescreveram já. Um relatório feito pela delegada federal Julia Vergara entregue em 29 de outubro de 2007, classifica “uma quadrilha de servidores associada para a prática de crimes contra a administração pública e o meio ambiente”. As investigações são baseadas em escutas telefônicas (algumas, bem interessantes, estão disponíveis aqui) e depois em informações de computadores apreendidos na diligência do dia 3 de maio. Um resumo do relatório de 743 páginas foi feito por jornalistas do Diário Catarinense e está disponível nesse link.

O prefeito Dário Berger foi acusado de ter criado um projeto de lei complementar, chamada lei da Hotelaria, para beneficiar o dono do Costão do Santinho, Fernando Marcondes de Mattos. Berger teria recebido uma doação de campanha pela empresa de Mattos no valor de 500 mil reais. Das negociações também participou o vereador Juarez Silveira (sem partido) que chegou a ser cassado mas depois recuperou o mandato. Segundo a delegada, as alterações da lei da Hotelaria não representavam pedidos da categoria, isto quer dizer que o sindicato dos pequenos hotéis da região não participou das negociações da lei. Somente o Costão do Santinho tinha interesse nisso.

Piada pronta em protesto contra Fernando Marcondes de Mattos dono do Costão do Santinho

Prefeito de Florianópolis Dário Berger tem direito a foro priveligiado

A presença de Berger no inquérito acabou ajudando a travá-lo judicialmente. Pelo cargo de prefeito que ocupa ele tem direito a foro privilegiado. O inquérito está hoje na justiça de Porto Alegre, mas os advogados de Berger querem que ele seja julgado em Santa Catarina. Aguarda-se o desmembramento do processo entre os dois fóruns.

Outra frente de investigação fala da “proximidade entre a iniciativa privada e agentes públicos”. No caso a empresa de Porto Alegre, Habitasul, responsável por construções em Jurerê Internacional, teria arranjado estadias em hotéis de luxo para vereadores (como Juarez Silveira) e funcionários públicos. Emails tratam de pagamento por “assessoria especial” feita a Rubens Basso e José Rodrigues da Rocha, funcionários de órgãos da prefeitura como Ipuf e Susp. Estes também teriam recebido lotes do Costão do Santinho como “pagamento”.

 

Secretário Mário Cavallazzi (esquerda) e vereador Juarez Silveira ambos envolvidos no escândalo

O Shopping Iguatemi teria pagado 27 mil a um servidor para liberar o habite-se. Outras frentes investigaram outros casos suspeitos envolvendo grandes construções, de shoppings a campos de golfe. Confira a lista dos principais envolvidos aqui.

O processo ainda não está fechado, mas cada vez as punições ficam mais difíceis e/ou irrelevantes. Até mesmo Juarez Silveira, apontado como chefe do esquema, conseguiu reverter às decisões judiciais que bloqueavam seus bens e o cassavam do cargo de vereador. E pior, foi nomeado pelo governador Leonel Pavan a ser diretor regional da Casan (empresa pública de abastecimento de água em SC) mesmo sem capacitação técnica e a despeito das acusações passadas.

E o que podemos esperar? O que nós, pobres pessoas desimportantes, podemos fazer?

Talvez transformar essa tragédia em comédia. Talvez darmos a nossa própria versão do caso, fazê-lo ser lembrado pelas crianças, marcá-lo na história como um conto moralista. É um jogo, onde a regra deve ser condenada a exclusão. Vamos fazer um filme.

Ou vamos só abstrair e ir a praia. Que tal Jurerê?

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Deu no New York Times…

As lendas urbanas parecem ter tomado o lugar das medievais na cultura popular contemporânea. Seriam os equivalentes aos “causos” do interior sobre boitatás e lobisomens. E nisso os países “desenvolvidos” estão (como sempre) a nossa frente. Eles já passaram pelo período de especulação imobiliária tomando tudo, invadindo e desmatando áreas sem pensar nas conseqüências a natureza. Os pioneiros da revolução industrial tiveram o prazer de sentir as conseqüências dos inchaços nas cidades trazendo levas de migrantes para trabalhar nas fábricas.

E assim, histórias de jacarés entrando pelo esgoto (como ratos) em cortiços também eram comuns, como essa notícia do New York Times de 1935, transcrita (em inglês) nesse site. Notem o “prefácio” enfatizando que “apesar da história vir de um jornal com a reputação do New York Times ela merece ser tratada com ceticismo”.

Assim nasceu (em Nova York) a lenda urbana do jacaré que pode sair de um bueiro e atacar uma criança indefesa. Lenda que já foi aproveitada pela indústria cultural (vide post anterior) e virou um belo filme ruim: Alligator.

Nós não temos um jornal como New York Times, mas temos seu equivalente mais próximo, Jornal do Almoço, que fez essa reportagem em 2008 e conclama a “convivência relativamente pacífica” entre as duas espécies. Destaque nesse vídeo para o desempenho do mestre de cerimônias Mário Motta, largando duas pérolas, uma no início e outra no fim:

E com youtube quem precisa de Jornal do Almoço? Jacarés na cidade já são banais:

Talvez tenham conseguido a “convivência pacífica” com o grande monstro, antes que ele ameaçasse a sociedade capitalista liberal lá em Nova York. Ou talvez tenham simplesmente o exterminado. Mas a culpa tem permeado o inconsciente coletivo da classe média e denegrido em formas distorcidas de expressão, como nas versões apelativas de filmes estilo Alligator. E até hoje o New York Times dá noticias semelhantes aquela e não percebe.

As lendas podem ganhar, invés de explicações céticas, versões ainda mais criativas e fantasiosas, e por que não… poéticas. Como na citação feita no quadrinho inglês Kid Eternidade de Grant Morrison, em que um personagem fala:

“Você pega filhotes de jacaré trazidos como lembranças da flórida e quando eles começam a crescer, bem, as pessoas apenas jogam elas pela privada. Igual quando você joga erva e outras merdas pela privada quando a polícia dá uma batida.”

“Você já ouviu a da erva branca que cresceu lá embaixo? Maconha que nunca viu a luz do dia e supõe-se que seja a melhor de todas já fumada. Mas, ninguém consegue chegar perto por causa dos jacarés.”

“Ninguém exceto os bebês. Porque você tem todos aqueles fetos que desceram pela descarga e toda a droga e os jacarés crescendo por lá.”

“E os bebês cegos cavalgam nas costas do jacaré albino fumando maconha, certo?”

“Essa é a explicação para a fumaça vinda dos esgotos”.

E assim nascem as lendas urbanas. E se a lenda for mais interessante que a realidade, publique a lenda…

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