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Brinquedos que ganham vida

A técnica do stop motion praticamente nasceu com o cinema. A decomposição do movimento em fotografias separadas e depois sua aglutinação em seqüência recompondo o mesmo movimento foi o que deu o estalo inicial aos inventores. Diz-se que uma aposta entre senhores em 1872, questionava se o cavalo tirava as quatro patas do chão enquanto corria. Para tirar a prova o fotógrafo inglês Eadward Muybridge criou um sistema com várias câmeras em sequência com um disparador automático, e assim pode tirar fotos dos movimentos do animal provando que, sim, ele tirava as quatro patas do chão enquanto corria.

Esse experimento não só deu pontapé inicial ao cinema como antecipou várias técnicas de decomposição de movimento, do stop motion, ao slow motion, até o efeito bullet time de Matrix.

Fotos originais tiradas pela máquina de Muybridge

GIF animado com as fotos de Muybridge

Segundo a Wikipédia, o primeiro filme considerado de stop motion foi The Humpty Dumpty Circus de J. Stuart Blackton em 1897. Essa técnica inovadora foi utilizada por artistas que perceberam todas as suas possibilidades como o próprio George Méliès (veja post anterior aqui). Cartunistas e artistas plásticos, como Emile Cohl e Winsor McCay, juntaram seus desenhos a essa técnica para dar movimentos aos personagens de cartuns criando assim os desenhos animados.

Mas o stop motion se separaria da animação tradicional se tornando um sub-gênero de experimentação.

O cinema tradicional consagraria a técnica muitos anos depois. Foi o técnico Willis O’Brien que daria vida a dinossauros no filme mudo The Lost World em 1925. O sucesso desta película abriria caminho para o primeiro grande blockbuster recheado de efeitos especiais (criados pelo mesmo Willis O’Brien): King Kong. O filme foi lançado em 1933 e assombrou uma platéia que ainda sofria da “grande depressão” de 29. Sucesso estrondoso e indiscutível clássico do cinema, King Kong entrou para a mitologia moderna sendo tantas vezes discutido, copiado, refilmado, homenageado, parodiado, que mesmo quem nunca o assistiu conhece seu enredo e, principalmente, seu trágico final no Empire State.

Na platéia de King Kong em 1933 estava um jovem com um nome quase impronunciável: Ray Harryhausen. Maravilhado, o jovem quis aprender mais sobre a técnica do stop motion e começou a trabalhar na equipe de O’Brien. Logo ele se tornaria principal especialista em efeitos especiais de uma série de filmes de aventura e fantasia que fez dos anos 40 até o início dos anos 80. Harryhausen nunca alcançou o sucesso tão extraordinário como de King Kong, mas seus filmes são hoje lembrados por uma geração de cineastas e aficcionados que cresceram vendo-os nas matinês da TV.

Eram aventuras B descompromissadas para um público infanto-juvenil, onde dava vida a mitologia grega e oriental, dinossauros, dragões, medusas e seres extra-terrestres. Os títulos já dizem tudo: Sinbad e a Princesa, Jasão e os Argonautas, O Monstro do Mar Revolto, A 20 milhões de Milhas da Terra, e a primeira versão de Fúria de Titãs.

Ray Harryhausen e duas de suas criaturas

A técnica stop motion tem muito de artesanal e ela encontraria seu verdadeiro nicho longe de Hollywood. No leste europeu, onde uma tradição de teatro de bonecos logo a incorporou. A república Tcheca seria um dos principais pólos de criação de stop motion e teria seu principal representante em Jiri Trnka, chamado de “Walt Disney do Leste Europeu”. O estúdio que tem seu nome, produziu (com financiamento do governo comunista) uma quantidade enorme de filmes, não só do próprio Trnka, mas de outros artistas, inclusive de outro países como o japonês Kihachiro Kawamoto. Em geral seus filmes tem muito de arte experimental, se distanciando da narrativa clássica em roteiros surrealistas, enquanto a estética dos bonecos artesanais da tradição eslava mantém sua identidade local.

Trnka faria Ruka (A Mão) em 1965, ultimo filme antes de sua morte em 1969, onde refletia sobre o artista criador tendo que se curvar ao sistema. Ruka ganhou prêmios no exterior, mas foi proibido em seu país.

Jiri Trnka em seu estúdio

A técnica parecia esquecida, jogada a um canto, depois que nos anos 70 filmes como Guerra nas Estrelas elevaram os efeitos especiais a um outro patamar. A nova geração achava o stop motion ultrapassado e “tosco”, muito distante do pretenso “realismo” dos novos efeitos. Como ainda era a única maneira de animar certos personagens (antes da computação gráfica) até inventaram uma “outra” técnica: go motion. Na verdade simplesmente borravam os movimentos do boneco para dar mais “dinâmica”, simulando o movimento capturado ao vivo.

Mas em 1993 um cineasta consagrado chamado Tim Burton cria um especial de natal para a Disney, e é lançado O Estranho Mundo de Jack. Burton escreveu o filme e concebeu os personagens, mas, ao contrário do que muita gente pensa, não o dirigiu (estava trabalhando em Batman O Retorno), entregando a “honra” ao amigo Henry Sellick (que depois faria James e o Pêssego Gigante e Coraline).

Estranho Mundo de Jack é hoje um Cult movie, mas na época foi considerado “adulto demais para as crianças e infantil demais para os adultos”.

Realmente, Burton e Selick levavam para o universo (supostamente) inocente das crianças uma estética bizarra mesclada a muito humor negro, mas mantendo a fantasia infantil. Justamente essa foi a grande sacada. Nisso acabaram se aproximando mais de Jiri Trnka (cujos filmes eram mais adultos) do que os coloridos desenhos da Disney. Sua ousadia foi certeira, abriu um novo filão para um público seleto e fiel que buscava filmes mais artísticos e longe dos clichês. Jack se tornou referência obrigatória para trabalhos posteriores.

Reza uma lenda que em 2001 a Disney cogitou fazer uma continuação, só que usando a técnica de animação computadorizada do sucesso Toy Story. Ainda bem que Tim Burtom demoveu-os da idéia.

O mundo estranho de Tim Burton

A consagração de Estranho Mundo Jack ao longo dos anos, junto com o barateamento de equipamentos como câmeras digitais e computadores, deu nova vida a técnica clássica. Da mesma maneira que o adolescente Ray Harryhausen se maravilhou com King Kong em sua época, jovens de hoje, maravilhados pelo “faça você mesmo”, começam a explorar as possibilidades criativas da manipulação do tempo e do espaço. Qualquer visita ao Youtube e Vimeo tem amostras de centenas de trabalhos que vão dos profissionais, os estudantis, aos amadores.

Como Harryhausen, Trnka e Burton, eles estão lá, criando seu próprio universo.

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O Verdadeiro Mágico dos Efeitos Especiais

Quando o cinema nasceu, ele não era mais do que uma curiosidade de feira. Poucos viam nessa brincadeira extravagante uma serventia além das fotos em movimento. Quando os irmãos Lumiére faziam suas exibições públicas eles próprios pensavam que seu invento não passava de uma “moda passageira”, um frisson que logo seria ultrapassado por algum outro invento curioso. Tanto que quase convenceram George Méliès a desistir de comprar um de seus cinematógrafos: “Ela pode ser explorada durante algum tempo como curiosidade científica, mas, fora disso, não tem nenhum futuro em termos comerciais” disse o pai dos irmãos inventores, Antoine Lumiére (leia aqui).

Vamos lembrar que o ano é 1895 e as feiras, circos e parques, são os principais locais de diversão pública – e barata. Nesses locais havia atrações como carrosséis, animais amestrados, a barraquinha com Monga A Mulher Gorila, outra com os freaks (pessoas deformadas como o Homem Elefante) e a barraquinha do cinematógrafo exibindo inocentes filmes do cotidiano. As pessoas pagavam dois centavos para se assombrar com O Trem Chegando a Estação, que vinha em direção a tela e parecia que ia invadir o recinto.

Fã de Houdini, George Mélies usou o cinema nas suas prestidigitações

George Méliès era um empresário do ramo de Variedades, tinha comprado o teatro em Paris que tinha sido do grande mestre Houdini. Fã deste, ele também era ilusionista e no teatro fazia suas apresentações de mágica junto com outros espetáculos. Pensou em acrescentar o cinematógrafo como mais uma novidade. Mas um dia, enquanto filmava, a geringonça deu defeito e travou. Ao conseguir consertar ele voltou a filmar da onde tinha parado e depois percebeu o efeito que causava: as pessoas pareciam sumir em cena. Logo ele percebeu que tinha a máquina de ilusões perfeita.

A partir de efeitos artesanais (feitas mecanicamente ou diretamente na película), Méliès criou histórias fantásticas, foi a lua, viajou pelo impossível, enfrentou demônios negros, manipulou tempo e espaço. Fez mágicas. Aproveitou as possibilidades técnicas com toda a criatividade de um artista. Seu filme de maior sucesso foi uma adaptação de Julio Verne, Viagem a Lua, que foi homenageado no clip do Smashing Pumpkins: Tonight, Tonight.

Comparando o livro com o filme, Verne tenta ser fiel nas explicações científicas, já Méliès usa da paródia inconseqüente. Na cena do tiro, por exemplo, enquanto no livro a viagem dentro da bala leva dias, no filme a bala acerta quase imediatamente o rosto da Lua, numa cena que se tornou icônica. Méliès satirizava as elites intelectuais e seu cientificismo barato ao comparar seu grande engenho com uma arma comum que disparava contra um objeto no céu.

Méliès foi dos primeiros a perceber que podia contar uma história com as imagens. Ele não conhecia a linguagem cinematográfica, não utilizava corte em continuidade, closes, nem nada disso. Talvez, pela característica dos efeitos que usava, a câmera estava sempre fixa, num plano aberto, diante de um cenário onde os atores atuavam.

Com o tempo e outros pensadores (Griffith, Einsestein), a linguagem cinematográfica foi se aprimorando e se intelectualizando. Saiu dos circos e feiras e criou sua própria rede de exibição. Também angariou um público seleto. Mas aí, quando o aspecto artesanal se perde, Méliès entra em decadência. Durante a primeira guerra seus filmes (películas de celulose) são transformados em matéria prima para fabricar sapatos. Falido, seu teatro é demolido, e termina seus dias vendendo brinquedos na França. Morre em 1938 no esquecimento.

Segundo o site Early Cinema, a contribuição de Méliès ao cinema estava na combinação de elementos tradicionais do teatro e shows de variedades com as imagens em movimento. Ele buscava apresentar espetáculos que não eram possíveis nos shows ao vivo. Inventou o cinema de entretenimento.

E o jacaré? O que tem haver com isso?

A estética do Jacaré do Papo Amarelo está ligado a esse lado artesanal e assumidamente burlesco. É só olhar todas as citações no clip de Tonight Tonight: os cenários teatrais, os exageros dos atores, os efeitos simples e a vontade de se deixar contaminar pela fantasia. Não quer dizer que os atores terão que se vestir como no século passado, nem que os cenários serão pintados, mas o espírito irônico e artesanal estará presente.

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