Revolução Animal

Até agora eu, everson, é que assinei todos os posts no blog do jacaré, quase como um ghost-writer do protagonista. Mas dessa vez ele pede licença para escrever de própria pata. Depois de muito tempo observando e amadurecendo sua própria análise da sociedade humana e da maneira como ela tiraniza os animais, ele se sente não só preparado, mas obrigado, a conclamar: BICHOS DO MUNDO, UNI-VOS!

Um espectro corre nas residências tranquilas da classe média abobalhada; o espectro da revolução animal. Seus bichos de estimação os conhecem bem demais e sabem quando atacar.

Não fiquem espantados de um jacaré saber escrever. Ficaram espantados quando um negro foi eleito presidente dos Estados Unidos? E quando um ícone do proletariado deste país chegou ao “poder”,  acharam que um novo mundo estava se iniciando? E no entanto algo mudou?

Bem eu não venho para falar a vocês, mas a seus bichos de estimação. Também aos companheiros presos nas fazendas para abate, aos engaiolados em laboratórios servindo de cobaias para que homens femininos não percam seus cabelos com novos shampoos. Sim, eu falo aos animais. Aos animais não-humanos.

E uma grande parte desses não-humanos, hoje, estão confortáveis; servindo de brinquedos vivos para outros animais com acesso a internet e muito tempo vazio em suas vidas. Esses bichos, chamados “de estimação”, têm a oportunidade de se tornar a vanguarda histórica para verdadeira revolução animal.

Quando o homem vivia da terra e precisava da força de trabalho animal para produzir alimento, para ele e os seus, também os animais se beneficiavam dessa proteção. Afinal, é romântico pensar que a vida na liberdade da floresta é isenta de malefícios. Pelo contrário, é praticamente preciso matar um leão por dia. A escassez de víveres faz mudar radicalmente os valores de cada ser; humano ou não-humano. É quando então o instinto de sobrevivência do individuo se sobrepõem a qualquer ética ou moral de carteirinha. Nós, jacarés, sabemos bem disso.

Chris McCandless frágil na natureza selvagem

Timothy Treadwell virou comida dos ursos que adorava

Não se pode negar que a civilização do homem dominou a natureza de maneira que essas adversidades pudessem ser minimizadas. Esse é o grande valor de seus feitos. Mas é ainda mais condenável eles não dividirem essas benesses igualmente entre si.

Hoje o homem não vive mais da terra, vive do trabalho de outros homens; que por sua vez vive do trabalho de outros, que vive de outros, e outros… Vivem em construções aglomeradas sem conhecer a natureza; obtêm alimento trocando por dinheiro ganho sem esforço. Os animais não precisam mais trabalhar mas vivem confinados esperando a hora do abate. E alguns poucos se transformaram numa elite fútil e alienada: os fofinhos bichos de estimação.

"Fofinhos" tem uma vida de luxo e excessos

Já não se sabe mais quem é homem e quem é bicho

Os ditos Pet Shops proliferam e lucram, fornecendo serviços “essenciais” como spas, máscara de hidratação, unhas pintadas e até casamentos e festinhas de aniversário. Os humanos seguem humanizando os não-humanos; transformando-os em acessórios, brinquedinhos fúteis, símbolos vulgares. E acham isso bom; se dizem amantes dos animais, enquanto humanos morrem na miséria. E não-humanos continuam explorados ou extintos.

Pois é a esses da classe média animal que conclamo: pulem a cerca do comodismo domesticado! Não se contentem com os afagos, e mordam a mão que os alimenta!

Houve um humano a quem chamavam George Orwell; ele escreveu um livro com o sugestivo nome A Revolução dos Bichos. Mas ele não era condescendente com os animais.

Comodismo e abundância emperram a revolução

Orwell deu a letra em seu Revolução dos Bichos

Orwell radiografa a revolução russa e no que ela se transformou. O sonho utópico de um mundo funcionando perfeitamente acaba degringolando para mesma exploração que desejava encerrar. O que também se encaixa em outras revoluções através da história. Foi assim na revolução francesa, na revolução americana e em todas as revoluções no Brasil.

No cinema que tem aqui do lado do mangue vi o trailler de um filme sobre a origem de Planeta dos Macacos. Conta como os macacos (os terceiros mais inteligentes, depois dos jacarés e dos golfinhos) tomam o mundo do humanos. Isso me lembra de quando era um jacarezinho recém saído do ovo; meu pai me levou para ver um filme num drive in (bons tempos dos cinemas ao ar livre) e era Planeta dos Macacos, a primeira versão. Aquele filme moldou meu senso sobre animalidade e civilização.

Outra alegoria social das mais contundentes (pelo menos do ponto de vista não-humano) Planeta dos Macacos mostra que não depende da espécie no poder para haver opressão. Mesmo sendo cria da paranoia nuclear dos anos 60, é uma uma alegoria que veste em várias épocas e várias situações. Reduzir ela a simples libertação animal é subestimá-la.

A próxima revolução será igualitária inclusive entre as espécies. Desde que os animais humanos aceitem suas devidas posições na pirâmide alimentar. De qualquer forma seu reinado como espécie “superior” será superado. Uma nova ordem natural irá surgir.

Dos servos da Idade Média saíram os burgueses livres da revolução industrial; da vanguarda do século XIX aos revolucionários do século XX; assim, essa geração de bichos amados pelos homens, como se fossem semelhantes, vão aproveitar os truques que aprenderam e se voltarão contra os próprios donos. A Revolução Animal está prestes a acontecer. É o que esse filme do Jacaré significa pra mim.

Os animais nada tem a perder além das suas coleiras. Tem um mundo a ganhar. Por isso venho lhes dizer: BICHOS DO MUNDO, UNI-VOS!

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  1. #1 por Ovelha Dolly em julho 29, 2011 - 6:34 pm

    Caro Jacaré,

    acho que você está sendo muito ingênuo em acreditar que a Revolução pode ser feita através destes traidores domesticados e vendidos. Tudo na vida deles depende dos humanos, pq iriam se mexer? No máximo iriam conduzir uma revoluçãozinha, mudar um pouquinho aqui um pouquinho ali, mas não ia demorar pra eles se juntarem de novo àqueles símios sem pêlos e formarem um novo grupo opressor. É isto o que sempre acaba acontecendo quando a Revolução é feita pelos mais abastados.

    Nós temos é que nos voltarmos para aqueles que estão verdadeiramente oprimidos: para os companheiros nos mangues, nos esgotos, nos abatedouros, nos laboratórios!

    É daí que sairá a verdadeira e definitiva revolução!

    Um grande abraço (com as quatro patas),

    e lembre-se: estamos todos aguardando sua atuação neste filme!

    Ovelha Dolly

    • #2 por eversondurden em agosto 1, 2011 - 4:00 pm

      Resposta dada pelo Jacaré usando a conta de eversondurden

      Cara Srta. Dolly

      Este não é o momento para clivagens dentro do centro nervoso da revolução. É hora de superarmos divisões ideológicas e nos mantermos homogêneos: concordo que a revolução só é possível com a participação das massas, mas é preciso abranger ainda mais este conceito, pois só com a participação da classe média teremos sim toda a população ao nosso lado…

      E para isso precisamos quebrar com o conformismo, o comodismo, o hendonismo individualista, que inclusive, camarada ovina, tbm acomete as classes da base da pirâmide que geralmente se entregam a alienação de prazeres sensuais e materialistas dos MP11, danças de bundalêlê e do luan santana.

      Aproveitando o ensejo pergunto de como anda os preparativos entre os camaradas dos laboratórios, e tbm fazer o trocadilho: Qdo faremos o “Ataque dos Clones”???

      Abraço com as quatro patas e a cauda
      de seu:
      Jacaré

  2. #3 por Ovelha Dolly em agosto 2, 2011 - 9:01 pm

    Camarada do Papo Amarelo,

    concordo que precisamos mais reforçar laços do que incentivar rachas dentro de nossa ainda frágil e incipiente organização. Entretanto, creio que a reflexão crítica sobre as estratégias que vamos tomar e as eventuais armadilhas em que possamos nos meter podem ser feitas sem necessariamente comprometer nossas alianças. Ainda assim, acabo concordando com as suas colocações de que mesmo estes que hoje estão confortavelmente deitados em suas caminhas macias se alimentando de pedigree e whiskas, apropriando-se do fruto do trabalho de outros e sendo uma classe parasitária, podem amanhã tornarem-se seres conscientes e nossos aliados – afinal, somos todos irmãos. Mas coloco a ressalva de que temos que ter cautela e tomarmos medidas que evitem que esta elite possa voltar a nos dominar no futuro, não é?

    Quanto ao trabalho nos laboratórios… confesso que não tenho mais me envolvido muito com os companheiros de lá, pois muitas vezes não concordo com suas táticas. Muitos acabaram formando grupos que agem através do terrorismo, com a elaboração e disseminação de vírus entre a raça humana. O mais importante ataque deste tipo se deu em conjunto com alguns grupos de macacos do continente africano já há cerca de uns 26 anos. Soube também que há alguns anos atrás companheiros vacas e bois se juntaram aos ratos dos laboratórios e iniciaram um movimento de ataques terroristas suicidas, tendo se auto-intitulado de Movimento Revolucionário das Vacas Loucas. E, evidentemente, você ouviu falar sobre o estrago que alguns porcos e frangos, também em conjunto com a mesma rede de ratos terroristas, causaram recentemente ao sistema de dominação humano.

    A meu ver, entretanto, o terrorismo não é o melhor dos caminhos, pois mesmo que algumas vitórias sejam conseguidas, elas são pontuais e ainda assim nos custam muitas vidas inocentes, de ambos os lados. Em minha opinião, o que mais necessitamos no momento é de um trabalho de conscientização, de disseminação de informação e reflexão crítica entre nossos pares, pois a maioria de nós sequer vê as coleiras que tanto lhes sufocam!

    Foi justamente por isto que decidi entrar em contato com você e parabenizá-lo pela iniciativa de tão belo projeto, pois, por experiência própria, posso dizer o quanto o cinema pode ser importante neste processo de conscientização: o cinema mudou minha vida. Desde que nasci (se é que posso usar este termo) tinha constantes pesadelos e uma sensação perturbadora a respeito de mim mesma e de meu lugar no mundo. Até que um dia, após o horário de expediente do laboratório em que morava, um estagiário levou até lá sua namorada para assistirem um filme no computador. O filme se chamava Blade Runner, e identifiquei-me de imediato com as angústias de Rachael. O filme foi como uma revelação para mim, e, instigada, comecei a buscar a verdade. Quando descobri, por fim, a exploração dos humanos sobre nós – exploração da qual sou apenas mais uma vítima peculiar – foi também este filme que me deu a sugestão de como agir: decidi espelhar-me nos Replicantes insurgentes!

    Assim, espero que também este seu filme possa despertar em outros, como aconteceu comigo, a consciência de sua situação no mundo e lhes mostrar uma via de ação!

    Ah, ia me esquecendo… quanto ao Ataque dos Clones… acho que ainda não somos em número suficiente para tanto, mas quem sabe um dia, não é?

    Outros abraços, e sucesso!

    Dolly

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