Eu era um Zumbi Independente…

Hoje em dia, pleno 2011, os Zumbis estão por toda a parte. Séries de tv como Walking Dead (que por sua vez nasceu nos quadrinhos) e livros que desvirtuam clássicos como Orgulho e Preconceito e Zumbis, a filmes a rodo que tratam do tema “zumbis” de todas as formas possíveis (variando entre o ruim e o péssimo) e até o Zombie Walk, a parada zumbi que acontece em várias cidades do mundo. Sim, nunca zumbis estiveram tanto na moda.

Cartaz da Zombie Walk em Florianópolis

E pensar que em outras épocas tais criaturas eram marginalizadas na nossa cultura, tachados de lixo, personagens de filmes trash de 3º categoria. O único espaço na mídia que poderiam arrastar suas correntes eram nos videogames (sempre podemos ser cruéis com eles sem peso na consciência), em comédias e paródias na tv, ou tapando buracos nas programações das madrugadas. E o público alvo eram sempre os nerds aficcionados que consomem qualquer migalha que remeta a seu objeto de culto.

A onda de mortos-vivos na nossa cultura atual começou em 2002 com o sucesso de filmes como Extermínio dirigido por Danny Boyle (de Trainspotting e Quero Ser um Milionário) e Resident Evil, versão do sucesso dos games. A onda se confirmaria com o lançamento em 2004 de Madrugada dos Mortos (remake de Despertar dos Mortos de 1978) dirigido por Zack Snyder, e da ótima comédia Shaun of the Dead (trocadilho com o título em inglês de Madrugada dos Mortos, Dawn of the Dead). Este último, que no Brasil teve o ridículo título de “Todo Mundo Quase Morto”, talvez seja o que melhor “entendeu” a simbologia produzida pelos zumbis, comparado-os a pessoas comuns, alienadas e individualistas.

Shaun só quer ser mais um na multidão

E a onda parece longe de terminar com inúmeros outros títulos sendo despejados nas locadoras, nos sites de download e bancas de revista: Zumbilândia, REC, Army of the Dead, House of the Dead, qualquer coisa com “of the Dead” no final…

A origem da palavra “zumbi” é africana. Lembram do Vodu? Durante muito tempo o personagem do zumbi foi associada a cultos africanos das Antilhas. Hoje esse “link” parece ter sido abolido, trocado pelos politicamente corretos e anti-sépticos experimentos científicos com vírus.

(Nada de piadas sobre o Zumbi dos Palmares, Ok?)

Morto-Vivo haitiano do filme I Walked with a Zombie de 1943

Mas a forma atual do arquétipo, conhecido por crianças e adultos em todas as partes do mundo, tem origem específica. É a dos zumbis do filme Noite dos Mortos-Vivos original de 1968 dirigido por George Romero, considerado o pai dos mortos-vivos contemporâneos. Ele modernizou a lenda retirando quase tudo de sobrenatural dela. Explicações pseudo-científicas aqui e ali podem aparecer, mas, pelo menos nos filmes de Romero, elas são inalcançáveis aos meros (i)mortais. Além de totalmente dispensáveis. Os zumbis caminham entre nós ponto.

George Romero e grande elenco, do tempo em que os zumbis eram marginalizados e incompreendidos

A própria história da feitura do filme A Noite dos Mortos Vivos já dava outro filme.

O então jovem diretor Romero quer fazer seu primeiro longa e se junta a outros 9 amigos formando a pequena produtora Image Ten (são dez associados, por isso “Ten“, entendeu?). O projeto é totalmente independente e a forma de contornarem as dificuldades financeiras e técnicas são dignas de nota (então anotem aí): Os dez associados ajudam como podem, alguns são atores mesmo, e atuam  entre os principais, outros fazem suas participações como zumbis, o próprio Romero faz uma ponta como repórter na tv. Todos buscam apoio no comércio da pequena cidadezinha de Pittsburgh, onde moram, conseguindo 13 mil doláres.

A idéia original veio de uma versão do conto de Richard Matheson, Eu Sou a Lenda (sim, o mesmo que virou filme com Will Smith), mas as locações foram reduzidas ao máximo, toda a ação se passa na casa onde um grupo de pessoas estranhas se protegem dos zumbis tentando entrar. Reduziu a história a uma situação quase absurda e sem maiores explicações, onde os conflitos humanos são maximizados e não há espaço para cooperação.

Cooperação essa que parecia haver bastante entre os associados da Image Ten. Um disc-jóquei da rádio local fez a trilha sonora a partir de discos com trilhas de obscuros filmes de ficção-científica dos anos 50. Trilha muito bem aproveitada aliás. Outro que trabalhava num frigorífico conseguiu a carne e ossos para os zumbis se banquetearem nas cenas de canibalismo. E um kit educacional de aula de anatomia virou um cadáver descarnado no alto da escada.

Arte promocional feita para Noite dos Mortos Vivos em 1968

E pior! Fizeram com muita ousadia. Em pleno 1968, ano dos assassinatos de Martin Luther King e Bob Kennedy, dos conflitos estudantis e revoltas em guetos negros, Noite dos Mortos Vivos tem um protagonista negro e um final apocalíptico. Muita gente fala do sub-texto político nos filmes de zumbi de George Romero. Ás vezes com muito exagero. Não há como negar que há citações que parecem bastante óbvias, mesmo que sublinarmente.

Dez anos depois de a Noite… Romero faz a continuação, Despertar dos Mortos, onde os sobreviventes se escondem num shopping-center. A tirada irônica sobre a sociedade de consumo de Romero, não passou despercebida pelos críticos. Mesmo que nenhuma linha de diálogo do filme remetesse a isso. A crítica social, quando há, é como uma pimenta que dá sabor ao filme. Mas é uma pimenta pensada e irônica.

A empresa Image Ten se desfez depois do filme e os direitos de A Noite… original são de domínio público. Só isso já explica muito da atual onda cópias e remakes. George Romero seguiu uma carreira errática, com alguns filmes bons e outros médios, e em 1985 teria completado a trilogia dos zumbis com Dia dos Mortos. Mas agora, com seu nome reconhecido e aclamado, ele voltou ao tema querendo também aproveitar um pouco da onda que ajudou a criar. Só espero que não se torne cópia de si mesmo.

Como disse o crítico Roger Ebert sobre Despertar dos Mortos “a arte não precisa necessariamente ser de bom gosto”.

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