Arquivo de novembro \22\UTC 2010

Não confie em ninguém com mais de 32 dentes

Da contribuição e um amigo e uma rápida pesquisa na internet temos várias notícias, algumas bizarras, de jacarés atacando em zonas rurais ou urbanas. Vamos algumas delas:

Essa notícia foi mandada pelo camarada Renato, membro ativo (ops) da cooperativa do filme do Jacaré. No caso um pobre animal comia as criações de uma fazenda no interior do Rio de Janeiro. O nome da cidade chama mais atenção: Paciência.

E também em Florianópolis onde repete a lenda de Nova York e um jacaré fica preso dentro de uma tubulação de esgoto no bairro Trindade. A notícia é do início de 2010.

Essa aqui é de 2007, já mostra que na cidade as coisas são sempre multiplicadas pela população que circula em maior quantidade. Num parque da cosmopolita Curitiba, os passantes testemunharam quando um jacaré atacou um cão vira-lata que chegou a beira do lago. Pânico geral, e o aviso do biólogo parece chamada de filme de terror “ele pode ser mais rápido do que você imagina”.

Agora essa história que aconteceu em agosto desse ano foi a mais incrível. Uma jovem pesquisadora vivia numa casa flutuante na reserva Marimauá no Amazonas, um jacaré vivia sob a casa e convívia tranquilamente com ela e inclusive ganhou o apelido de Dorotéia. Talvez por ser na verdade um macho ele não tenha gostado do apelido, a verdade é que sem mais nem menos ele atacou a pesquisadora, mordeu sua perna e a arrastou para o fundo do rio. A “técnica” do animal é essa mesma, o jacaré fica parado sob o espelho dágua com apenas os olhos e as narinas para fora, esperando o momento em que a vítima se descuida, então ataca, morde a vítima e a puxa para o fundo girando de maneira a afogá-la mais rápido. No caso da bióloga, ela conseguiu fazer o jacaré soltá-la (com uma técnica parecida com os 5 dedos da morte de Pai Mei,  leia na notícia) mas ja sem a perna. Ela conseguiu subir e chamar ajuda pelo rádio.

A bióloga Deise Nishimura que perdeu uma perna no ataque do Jacaré "Dorotéia"

Na wikipedia (dos EUA) tem até uma lista com os ataques de Alligators (o jacaré deles) por ano. E casos como da bióloga também não são incomuns, como essa notícia de um adolescente que perdeu a mão num ataque parecido na Flórida.

Traiçoeiro? Vil? Ardiloso? Maquiavélico? Esses são valores criados pela natureza humana, assim como honra, confiança, justiça… A natureza dos predadores é a de sobreviver, e criar estratégias pra isso. Os lobos atacam em matilhas justamente para garantir a vitória em maior número. O tigre espreita as manadas em busca do mais fraco e mais frágil. Os jacarés não estabelecem empatia, aquele que estiver mais próximo pode ser escolhido como vítima hoje. Como a história do ambientalista Timothy Treadwell que foi viver com os ursos para defendê-los e acabou devorado por eles.  Só a natureza do homem pode dar valor as coisas, pode ir da mais baixa traição ao mais devotado amor, mas sempre consciente disso.

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Três anos depois…

Policiais com o material apreendido na noite de 3/05/2007

O que você estava fazendo na madrugada de 3 de maio de 2007? Nessa noite vários sites já davam notícia de mandados de prisão emitidos. Enquanto os policiais federais batiam nas portas suspeitas em Florianópolis e Porto Alegre, a notícia pipocava em vários sites a nível local e nacional. Toda uma investigação de nove meses ficava finalmente visível ao público. Naquela noite o juiz federal Zenildo Bodnar assinou os pedidos de prisão preventiva com o argumento que provas podiam estar sendo destruídas. Assim, não havia mais como segurar a notícia, pessoas conhecidas e importantes estavam sendo presas em suas mansões.

Nessa ultima semana que passou (a notícia é de 11/11) o mesmo juiz Bodnar entrou com um pedido de indenização por danos morais, por supostamente ter sido difamado. Segundo argumenta, na época ações do próprio ministério público foram feitas contra ele onde se “questionavam, com informações falsas e sem provas, decisões judiciais devidamente fundamentadas”. O estado poderá ser condenado a pagar até R$ 500 mil porque o juiz teria perdido uma importante indicação a promoção e teria lhe causado “estresse agudo e ansiedade prolongada, com uso de medicamentos”. E também estaria sofrendo de bruxismo (!), ou seja, literalmente choro e ranger de dentes.

Juiz Federal Zenildo Bodnar, que assinou os pedidos de prisão preventiva

Mais de três anos se passaram, nenhum dos 54 indiciados está preso. Aliás, boa parte das penas seria de três anos, quer dizer, já estão prescrevendo, se é que não prescreveram já. Um relatório feito pela delegada federal Julia Vergara entregue em 29 de outubro de 2007, classifica “uma quadrilha de servidores associada para a prática de crimes contra a administração pública e o meio ambiente”. As investigações são baseadas em escutas telefônicas (algumas, bem interessantes, estão disponíveis aqui) e depois em informações de computadores apreendidos na diligência do dia 3 de maio. Um resumo do relatório de 743 páginas foi feito por jornalistas do Diário Catarinense e está disponível nesse link.

O prefeito Dário Berger foi acusado de ter criado um projeto de lei complementar, chamada lei da Hotelaria, para beneficiar o dono do Costão do Santinho, Fernando Marcondes de Mattos. Berger teria recebido uma doação de campanha pela empresa de Mattos no valor de 500 mil reais. Das negociações também participou o vereador Juarez Silveira (sem partido) que chegou a ser cassado mas depois recuperou o mandato. Segundo a delegada, as alterações da lei da Hotelaria não representavam pedidos da categoria, isto quer dizer que o sindicato dos pequenos hotéis da região não participou das negociações da lei. Somente o Costão do Santinho tinha interesse nisso.

Piada pronta em protesto contra Fernando Marcondes de Mattos dono do Costão do Santinho

Prefeito de Florianópolis Dário Berger tem direito a foro priveligiado

A presença de Berger no inquérito acabou ajudando a travá-lo judicialmente. Pelo cargo de prefeito que ocupa ele tem direito a foro privilegiado. O inquérito está hoje na justiça de Porto Alegre, mas os advogados de Berger querem que ele seja julgado em Santa Catarina. Aguarda-se o desmembramento do processo entre os dois fóruns.

Outra frente de investigação fala da “proximidade entre a iniciativa privada e agentes públicos”. No caso a empresa de Porto Alegre, Habitasul, responsável por construções em Jurerê Internacional, teria arranjado estadias em hotéis de luxo para vereadores (como Juarez Silveira) e funcionários públicos. Emails tratam de pagamento por “assessoria especial” feita a Rubens Basso e José Rodrigues da Rocha, funcionários de órgãos da prefeitura como Ipuf e Susp. Estes também teriam recebido lotes do Costão do Santinho como “pagamento”.

 

Secretário Mário Cavallazzi (esquerda) e vereador Juarez Silveira ambos envolvidos no escândalo

O Shopping Iguatemi teria pagado 27 mil a um servidor para liberar o habite-se. Outras frentes investigaram outros casos suspeitos envolvendo grandes construções, de shoppings a campos de golfe. Confira a lista dos principais envolvidos aqui.

O processo ainda não está fechado, mas cada vez as punições ficam mais difíceis e/ou irrelevantes. Até mesmo Juarez Silveira, apontado como chefe do esquema, conseguiu reverter às decisões judiciais que bloqueavam seus bens e o cassavam do cargo de vereador. E pior, foi nomeado pelo governador Leonel Pavan a ser diretor regional da Casan (empresa pública de abastecimento de água em SC) mesmo sem capacitação técnica e a despeito das acusações passadas.

E o que podemos esperar? O que nós, pobres pessoas desimportantes, podemos fazer?

Talvez transformar essa tragédia em comédia. Talvez darmos a nossa própria versão do caso, fazê-lo ser lembrado pelas crianças, marcá-lo na história como um conto moralista. É um jogo, onde a regra deve ser condenada a exclusão. Vamos fazer um filme.

Ou vamos só abstrair e ir a praia. Que tal Jurerê?

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Fanfilms – Filmes feitos por amor

Os fanfilms começaram a surgir junto com as primeiras faculdades de cinema nos anos 60, quando os alunos se juntavam para por em prática o que aprendiam nas aulas e usavam seus heróis de infância como inspiração. O papa da pop art, Andy Warhol, patrocinou uma dessas experiências cinematográficas e produziu Batman Vs Drácula em 1964.

A principal fonte eram os super-heróis dos quadrinhos. A partir dos anos 70 começam a surgir convenções de quadrinhos – as comic-cons, sendo a principal de San Diego – e os fãs começam a trocar “figurinhas”, literal e metaforicamente. Nos anos 80 temos a febre das fitas VHS e do home vídeo, que barateia a produção e distribuição desses filmes e vídeos caseiros.

Nesse tipo de manifestação cultural, os meios de produção e o mercado consumidor se misturam. São filmes feitos por fãs-nerds para fãs-nerds, sem outra compensação além dos laços de amizade. A série Star Wars por exemplo, grande fenômeno midiático da época, produziu um sem número de filmes e vídeos em sua homenagem que eram trocados entre os próprios fãs.

Chad Vader - paródia clássica no youtube

A maior parte desses fanfilms ficou obscura e se tornou irrelevante no âmbito da cultura de massa.

O primeiro fanfilm a romper a barreira das convenções de quadrinhos, e ter “aura cult”, foi Batman Dead End de Sandy Collora. Feito em 2003, Dead End aproveita o vácuo deixado pelo fiasco das versões de Joel Schumacher (Batman Eternamente, Batman & Robin) e ao mesmo tempo aponta um caminho que acabou sendo seguido depois pelas novas produções dirigidas por Cristopher Nolan. Collora, com uma boa produção apesar de simples, abandona as outras visões de Batman no cinema e o aproxima mais dos quadrinhos. Um herói fantasiado, cujo cinto de utilidades é uma espécie de pochete e que usa lentes brancas nos olhos. Só é preciso abstrair as aparições de Alien e Predador que só se justificam pelas cenas de ação. Outro destaque desse filme é o Coringa, com texto da história Piada Mortal, está muito mais alucinado do que qualquer outra versão, mesmo a consagrada por Heath Ledger. Aliás merece nota o suícidio do ator que o interpretou, Andrew Koenig.

Batman anabolizado e Coringa alucinado

Mas quando as pessoas amam incondicionalmente algo geralmente perdem seu senso crítico, e o próprio senso de ridículo. Correm o risco de fazerem uma homenagem exageradamente indulgente ao seu objeto de culto. E conseqüentemente não serem nada interessantes para quem não conhece a obra. Se levar a sério demais é um problema. É o que acontece com alguns fanfilms da série Senhor dos Anéis, como Hunt for Gollun e Born of Hope. Sua pretensão de seguir fielmente a estética e estilo dos filmes de Peter Jackson (que começou a carreira com maravilhosos filmes trash) os torna simples cópias de segunda mão. E com atores ruins.

Born of Hope - só para fãs roxos de Senhor dos Anéis

Por outro lado, a paródia sempre foi um terreno rico para os fanfilms. Observar as falhas e clichês das histórias originais, e exagerá-los, foi a principal fonte de idéias para os fãs. Ainda que seja difícil escapar do óbvio e do mau-gosto, o humor sempre tem apelo popular garantido fora do eixo dos fã-clubes. É o caso de Star Wreck: In the Pirkinning de 2005, um filme longa metragem feito por fãs finlandeses de Jornada nas Estrelas misturado aos fãs de Babylon 5. Levou 4 anos para ser feito contando com a ajuda de uma centena de fãs. Foi um grande sucesso e levou seus produtores a criar um projeto totalmente original: Iron Sky. Conta a história maluca de nazistas que ao final da segunda guerra fogem para a Lua (!) e agora estão de volta para finalmente dominar o mundo.  Mantendo a concepção totalmente independente, no site oficial eles vendem “bônus de guerra” (igual aos “papéis” que os governos vendiam na época para financiar seus exércitos) e assim eles financiam sua própria produção com ajuda de pessoas comuns.

E assim, os fanfilms se configuram no mercado independente, uma nova maneira de se produzir filmes e cultura. Como ouvi um hippie uma vez falar: “e se trocássemos a lógica do capital pela lógica do amor?”, não diria tanto, mas diria “e se trocássemos a lógica do interesse pessoal pela lógica do prazer de juntar amigos para produzir algo em comum e se divertir fazendo?” É esse o interesse aqui. É um dos motivos de criarmos o Jacaré do Papo Amarelo.

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Deu no New York Times…

As lendas urbanas parecem ter tomado o lugar das medievais na cultura popular contemporânea. Seriam os equivalentes aos “causos” do interior sobre boitatás e lobisomens. E nisso os países “desenvolvidos” estão (como sempre) a nossa frente. Eles já passaram pelo período de especulação imobiliária tomando tudo, invadindo e desmatando áreas sem pensar nas conseqüências a natureza. Os pioneiros da revolução industrial tiveram o prazer de sentir as conseqüências dos inchaços nas cidades trazendo levas de migrantes para trabalhar nas fábricas.

E assim, histórias de jacarés entrando pelo esgoto (como ratos) em cortiços também eram comuns, como essa notícia do New York Times de 1935, transcrita (em inglês) nesse site. Notem o “prefácio” enfatizando que “apesar da história vir de um jornal com a reputação do New York Times ela merece ser tratada com ceticismo”.

Assim nasceu (em Nova York) a lenda urbana do jacaré que pode sair de um bueiro e atacar uma criança indefesa. Lenda que já foi aproveitada pela indústria cultural (vide post anterior) e virou um belo filme ruim: Alligator.

Nós não temos um jornal como New York Times, mas temos seu equivalente mais próximo, Jornal do Almoço, que fez essa reportagem em 2008 e conclama a “convivência relativamente pacífica” entre as duas espécies. Destaque nesse vídeo para o desempenho do mestre de cerimônias Mário Motta, largando duas pérolas, uma no início e outra no fim:

E com youtube quem precisa de Jornal do Almoço? Jacarés na cidade já são banais:

Talvez tenham conseguido a “convivência pacífica” com o grande monstro, antes que ele ameaçasse a sociedade capitalista liberal lá em Nova York. Ou talvez tenham simplesmente o exterminado. Mas a culpa tem permeado o inconsciente coletivo da classe média e denegrido em formas distorcidas de expressão, como nas versões apelativas de filmes estilo Alligator. E até hoje o New York Times dá noticias semelhantes aquela e não percebe.

As lendas podem ganhar, invés de explicações céticas, versões ainda mais criativas e fantasiosas, e por que não… poéticas. Como na citação feita no quadrinho inglês Kid Eternidade de Grant Morrison, em que um personagem fala:

“Você pega filhotes de jacaré trazidos como lembranças da flórida e quando eles começam a crescer, bem, as pessoas apenas jogam elas pela privada. Igual quando você joga erva e outras merdas pela privada quando a polícia dá uma batida.”

“Você já ouviu a da erva branca que cresceu lá embaixo? Maconha que nunca viu a luz do dia e supõe-se que seja a melhor de todas já fumada. Mas, ninguém consegue chegar perto por causa dos jacarés.”

“Ninguém exceto os bebês. Porque você tem todos aqueles fetos que desceram pela descarga e toda a droga e os jacarés crescendo por lá.”

“E os bebês cegos cavalgam nas costas do jacaré albino fumando maconha, certo?”

“Essa é a explicação para a fumaça vinda dos esgotos”.

E assim nascem as lendas urbanas. E se a lenda for mais interessante que a realidade, publique a lenda…

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Ins-pirações

Algumas “pérolas” que serviram de inspiração para esse projeto. Alligator de 1980, clássico das madrugadas da TV.

Tem também Killer Crocodile (1989) um italiano classe Z onde a poluição química em um rio transforma um crocodilo em um boneco de plástico nada realista. Alías temos que admitir que a pessoa que editou esse trailler conseguiu contar toda a história do filme (inclusive o final) em apenas 2 minutos e meio. Graças a ele não somos obrigados a assistir a “pérola” por completo.

E o maior de todos, o verdadeiro The King of all Monsters é o japônes Godzilla. A cinesérie começou em 1954, mas continua até hoje. Com algumas adaptações as novas tecnologias, claro. (Abstraiam a versão Hollywoodiana de 1998)

Só pra exemplificar a influência dos filmes do Godzilla, para o bem ou para o mal, tem esse clip do Bloc Party da música Fluxus (não considero a melhor deles) cujo visual e estética adotados podem ser um bom exemplo do que uma produção simples é capaz de fazer.

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